Rainha das Telenovelas (Crítica a "Rainha das Flores")

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Rainha das Flores apresenta-se com o ambiente tradicional das telenovelas, mas encena habilmente o factor surpresa e toda a estrutura é tratada com pinças.


Talvez ainda seja cedo para uma avaliação da mais recente aposta da SIC na ficção. Afinal de contas, Rainha das Flores estreou há bem pouco tempo. Contudo, o empenho na escrita é notório, mesmo findos os primeiros episódios. Algo raro nos dias que correm.

Do autor do sucesso angolano Jikulumessu, chega-nos a história de Rosa (Sandra Barata Belo), uma empresária bem sucedida e com um casamento de sonho, que tem um acidente e perde a memória dos últimos 15 anos. É então que a sua irmã, Narcisa (Isabel Abreu), desconhecida de todos, regressa para a ajudar na recuperação e se prepara para lhe roubar tudo.


Com efeito, tendo em conta que a heroína, depois do acidente, passa a ser um sujeito debilitado e sem poder, o perigo está no facto de a vilã poder tornar-se na verdadeira protagonista, deixando a história sem identidade.


No entanto, o triângulo amoroso da telenovela, envolvendo o médico de Rosa (Marco Delgado) e o actual marido (Pêpê Rapazote), é o que mais poder concede à mulher. Ela é quem controla toda essa linha de história, que tão importante é para uma telenovela.
E é também neste triângulo amoroso que, inesperadamente, se encerra o factor surpresa da trama. Os dois homens não são maniqueístas. Têm diferentes camadas que nos apaixonam, o que torna o desenrolar dos acontecimentos um tanto ou quanto imprevisível.


Quanto aos restantes núcleos, quase todos são leves e/ou cómicos, como acontece na maioria das telenovelas da SIC.
Todavia, e ao contrário das restantes produções do canal, descurou-se o enfoque nos problemas sociais e a comicidade não sai do papel. Os actores não convencem, de tão tépidos e desprovidos de talento que são, e a realização também não os ajuda.


Ademais, tendo em conta que um dos núcleos está na Madeira, é embaraçosa a escassez de cenas de exteriores nessa região. É certo que, em termos de produção, é um esforço. Mas, se assim é, talvez tivesse sido boa ideia não se ter personagens a residir nessa zona. O que temos é um rapaz com sotaque madeirense enfiado todo o dia num cenário claustrofóbico.


Contudo, a maioria destes núcleos secundários cruza-se, de algum modo, com a trama central. O facto de grande parte das personagens trabalhar nas estufas, pertencentes à família principal, ajuda bastante. Esta é uma mais-valia para o produto, pois, desta forma, todas as personagens têm potencial para terem mais importância, ao invés de servirem meramente para ocupar minutos.


Por fim, e falando em minutos, é de lamentar que, logo a partir do segundo ou do terceiro episódio da história, a SIC tivesse deixado de respeitar o gancho final dos episódios. Eles existem. Nota-se que estão no papel. Mas o canal parou de respeitar os guiões das suas novelas há bastante tempo. Quando já se tem a quantidade, para quê manter a qualidade?


A sorte é a equipa de guionistas ser muito boa, pelo menos até agora. Se continuarem assim, a protagonista continuará activa, os personagens pseudo-cómicos aguentar-se-ão, a consistência da escrita manter-se-á... E a telenovela continuará rainha.

Rainha das Flores é transmitida diariamente na SIC, às 22:30h.

Classificação: *


*
☆☆☆☆☆- Péssimo
★☆☆☆☆- Mau
★★☆☆☆- Razoável
★★★☆☆- Bom
★★★★☆- Muito Bom
★★★★★- Excelente

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